quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Neo-Pagão-Logismo - 3º lugar - Poesia

Você está Caosando!!!”, me disse uma vez
Causando o que, Logo perguntei, quem causa, causa algo, Revidei,
Não Tio, Você esta Caosando do verbo espalhar o Caos, escutei,
Parei, pensei, desacreditei, Espalhar o Caos era verbozeado,
Transformado em verbo, pra você,
Verbo transformado em verbo também não é desinteligente? me
perguntei,Verbozear, Caosar, Neologismo estúpido, mudança na língua? Pra que?
Juro que não sei, mutá-la talvez? O que? Como assim? Muda-la pra que?
Coitado de mim deve pensar o Corretor de texto, ou o seu F7 do computador,
Eles daqui a pouco descaosam isso, e eu quero ver como eu fico,
Com medo até do meu próprio umbigo,
Este povo com mania de grandeza, pensam que quem eles são?
“Você não é Chico Buarque e nem Caetano Veloso”, alguns me dirão,
Foda-se então ouvirão, sou tão ludito, de iluminado, quanto eles, me ludico,
sim estou criado o verbo ludir, de divertir, então leiam ludíco, por favor,
muito mais que eles com isso,
Corro o olho sobre meus devaneismos,
Pois devanear também será conjugado como eu quero,
Como eu quero, então agora tudo pode ser verbozeado, conjugado e assinalado,
Tudo é apenas variação do nosso português arcaico,
Ou seria um brasileiro resmungado?
Tanto faz, se me faço entendido,
as cobrinhas são meros enfeites no meu texto preto no branco,
verdes, vermelhas, dignas da nossa lusa aqui do lado,
Rubro verde, ou mato-roso, não este nem eu entendi,
Seria caosar muito com a nossa neste momento já coitada,
Outrora tida como língua portuguesa, agora língua mestiça,
Açoitada nos pelouros por loiros,
Destruída por negros, índios, japoneses, italianos e sírios,
Reconstruída por negros, índios, japoneses, italianos e sírios,
Verboseada por negros, índios, japoneses, italianos e sírios,
Caosada por negros, índios, japoneses, italianos e sírios,
Ludibriada por negros, índios, japoneses, italianos e sírios,
Estatutariamente imutada, por acadêmicos,
Arcaicos em seus palácios de diplomas,
Com suas teorias imutáveis,
Com suas cabeças descatáveis,
Com suas almas biodegradáveis
E suas Verdades Imutáveis.

Martir Luter Guimarães vermelho-esbranquiçado Gengiskan da Silva Sobrinho

Completude - 3º lugar - Prosa

Do bolso aos dedos me veio o bombom, não em silêncio, mas cantando a alegre música que alegra o paladar. A cada toque, todo manhoso, continuava a letra, que falava de tentações e delícias.
Na busca de sua verdadeira identidade, meus dedos, vagarosamente, foram despindo seu colorido e ilustrado traje magenta; e no final, que vergonha!, somente de roupa de baixo. A roupa amassada trazia seu cheiro, delicioso, doce odor do desejo ardente. Suas roupas íntimas, da cor do luar, eram tão finas, que se meus dedos não fossem cuidadosos, a teriam rasgado.
Ah!, que constrangedor aquele momento, um silêncio prolongado... Meus dedos se aproximaram e o abraçaram... Foi perfeito. Os dedos foram feitos para o bombom e o bombom, para os dedos: um encaixe sublime, sem falhas.
Os olhos, mestres dos dedos, encaravam aquela pele negra, aquela forma circular e voluptuosa. Depois de muito observar e admirar, ordenou, imperioso:
- Pegue!
Um contato cuidadoso: a cada toque sua pele parecia derreter, junto com minha moderação. Não resistindo mais, todos os membros imploravam pelo bombom.
Os dedos o fizeram subir pelo ar até a boca. Agora, que dúvida! Como comê-lo? Se for rápido, me arrependerei depois; se devagar, não sentirei o prazer da mordida rápida e saborosa.
Chegou o momento e nos encaramos. Iria começar o ritual, onde dois se tornam um, chegando à completude e ao prazer.
Foi se aproximando e antes dele, chegou a arma que ataca o nariz, intensificando o desejo, atiçando a vontade, tirando o controle.
Depois de um breve ósculo, iniciou-se o delírio. O bombom, atrevido, fazia delirar os meus dentes, minha língua, minha boca, meus sentidos, minha alma... E acabou; finalmente nos unimos.



Texto de Eraldo Souza dos Santos, terceiro lugar na categoria Poesia do concurso.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Trama - 1º lugar - Poesia

Texto de Vivian de Souza, vencedor na categoria Poesia do concurso.

A imagem distorcida - 1º lugar - Prosa

Não espero que compreendam o porquê de meus atos. Não escrevo para os que me considerarão louco, mas sim para aqueles que vivem ou já viveram tal situação. Espero ajudar quem precisa a encontrar uma solução. Este é um relato sobre uma atitude necessária realizada por mim em total sanidade e sem arrependimentos.

Ainda estou impressionado, ou melhor, satisfatoriamente impressionado com minha capacidade de raciocínio. Embora sempre minha mãe tenha me elogiado por isto e outras coisas, nunca me elogiara sinceramente – não como o elogiava! Ele era mais bonito, mais charmoso, mais forte! Não sei se um dia cheguei a amá-lo. Talvez senti certa compaixão por ele ser meu irmão gêmeo idêntico. Porém, não supria mais nenhum sentimento por aquele verme, a não ser repulsa.

Quando crianças, éramos melhores amigos, confidentes. Andávamos sempre juntos. Com o passar do tempo, essa união persistiu, embora sem vontade. Não sei explicar, mas sua presença me incomodava, assim como sua aparência. Seus cabelos eram mais louros que os meus, seus olhos mais verdes, seu sorriso mais sincero, como todo o resto. Sempre diziam como estávamos nos tornando belos, contudo eu percebia que meus elogios não passavam de bondade das pessoas para que não me sentisse menosprezado. Com minha mãe, era a mesma coisa. Eu fingia não perceber.

Dia após dia, seus cabelos ficavam mais louros, seus olhos mais verdes, e todo o seu ser ficava mais gracioso. Maldito verme! Tinha que conviver com sua magnificência cada segundo de minha vida, fingir amá-lo como todos os outros. Era quase insuportável! Sua presença apagava a minha, obscurecia meus feitos, tomava para si os meus elogios. Mas eu sabia...ah, eu sabia que chegaria a minha vez, que eu seria grandioso, e ele – ele ficaria na penumbra, no vale dos esquecidos! Como era grande meu ódio por ele!

Ódio. Foi com ele que tudo começou. Quanto mais eu me afastava e evitava-o, mais ele me procurava, me atormentando com sua bondade. Alimentava, assim, esse sentimento desgraçado, o qual existia dentro de mim. Percebi que só havia um jeito de encerrar aquele sofrimento, aquela perturbação. Sim, a morte era a única saída! Provavelmente, devem estar pensando que atingi a loucura. Mas não. Apenas uma pessoa sã como eu pensaria em uma solução tão óbvia e eficaz, além de agir na hora certa!

Aproximei-me dele como o melhor dos amigos, passei a persegui-lo da mesma maneira que me perseguia, ri das suas piadas mais medíocres, sempre procurando a ocasião perfeita. E, finalmente, ela apareceu. Na noite anterior à comemoração do aniversário de meu tio, a qual aconteceria em nossa casa, minha mãe saiu para fazer compras. Estávamos sós. Já era quase noite, as luzes das casas começavam a se acender. Ele tomava banho e cantarolava. Desliguei a chave de energia no quadro de luz que ficava na cozinha. Fui, passo a passo, em direção ao banheiro com uma faca empunhada. O infeliz berrava para eu arrumar o quadro, sem a mínima noção de seu destino, enquanto eu abria a porta sem fazer ruído. Por um momento, um único momento, pensei em desistir, temendo que ele tivesse me ouvido, pois ficara quieto repentinamente.

Fiquei imóvel durante alguns minutos e vi que ele acendia uma vela, a qual minha mãe tinha costume de deixar numa mesinha ao lado do chuveiro, caso acabasse a luz. Minha respiração ficou abafada. Pensei que talvez eu realmente viesse a falhar. Mas, então, ele abriu a cortina, iluminado pela luz da vela, o que realçou a perfeição de suas feições. Impulsionado pela raiva causada por aquela cena, avancei sobre ele, e apunhalei-o diversas vezes, principalmente no rosto, até torná-lo irreconhecível. Um tanto nervoso, enterrei o corpo em nosso jardim e tratei de limpar todos os vestígios de sangue.

Depois de deixar tudo em ordem, sentei no sofá extremamente perplexo e ansioso em relação aos acontecimentos. Permaneci lá, imóvel, como se todo o meu corpo tivesse se transformado em pedra, por pelo menos duas horas. Durante esse tempo, passando as imagens do assassinato repetidas vezes em minha mente, uma grande satisfação começou a tomar conta de mim. Eu finalmente fizera algo grandioso, maleficamente ambicioso, perfeito nos mínimos detalhes. E ele não estava ali para me subjugar ou ofuscar. Provei ser o melhor! Agora só bastava inventar alguma história que despistasse o que ocorrera, principalmente de minha mãe. Após essa etapa, não demoraria para esquecê-lo diante de meu brilho e talento.

Ela ficou surpresa ao chegar e se deparar com o sumiço do demônio, porém acreditou inocentemente que ele fora chamado para ajudar na mudança de um amigo para o interior, o que demoraria alguns dias. Não escondeu, contudo, seu abalo por conta da ausência do filho na festa do dia seguinte, mas compreendeu a situação. Acrescentou antes de ir se deitar: “Seu irmão sempre foi assim! Os outros em primeiro lugar!”

Irmão? Aquilo era um parasita! E como todo parasita, não merecia nada além da morte! Jurei para mim mesmo que apagaria as lembranças daquele verme, o quanto antes.

Muitos parentes chegavam para a celebração. Infelizmente, todos perguntavam sobre o outro. Eu apenas sorria, pegava os presentes empacotados e levava para a sala. Foi em uma dessas idas a sala que senti algo estranho. Alguém me observava. Eu sentia...eu podia sentir fortemente uma presença, a qual eu conhecia. Sim! Eu a conhecia muito bem. Comecei a procurá-la, desesperado. Suava frio, minhas pernas tremiam. Gritei: “Apareça!”. Tudo rodava, tudo se confundia. Então o vi! Era ele! Lá estava o maldito, rindo, nas janelas, nos espelhos, nos vidros dos relógios! Como? Eu o matara, eu o enterrara. Eu havia garantido o final de sua perseguição.

Corri para a cozinha, mas ele seguiu-me. Meu maior temor estava prestes a acontecer. Ele iria contar! Todos descobririam o que eu havia feito! Eu precisava impedi-lo de alguma maneira, precisava de uma solução. Porém dei-me conta que ele não estava me perseguindo e sim tentando se apossar de mim. Não pensei duas vezes: peguei uma faca e cravei-a profundamente em minha barriga. Vi, então, minha mãe. Ela se encontrava em pé ao meu lado, com lágrimas nos olhos. O suor pingava de meu rosto, misturando-se as minhas lágrimas.

“Aquele...!”, berrei, “mesmo depois de morto continua a me perseguir! Maldito demônio! Derrama meu sangue como se fosse o seu! Maldito! Odeio-te!”


___________________________________________________________________________



Texto de Júlia Rizzo de Medeiros Ferreira, vencedor do Concurso na categoria Prosa.